AnnE whith An E (série) e o que podemos aprender sobre o poder de escolha da mulher negra.


AnnE whith An E - AVISO DE SPOILER...



A série Anne já estava sendo alertada pela NETFLIX para mim, quando por indicação de amigas resolvi assistir, e quando falo assistir é maratonar todas as temporadas (sou sedenta) e maratonei todas 03 em dois, dois dias.

Na primeira visão eu fiz leituras pequenas, do quanto a protagonista sofre por ter passado boa parte de sua infância e adolescência em abrigos e pulados para vários como uma adolescente que fala demais, questiona demais, percebe tudo ao máximo (me vi nestas três situações, inclusive até hoje, na vida profissional escuto a seguinte frase: se não questionar, não é ela....) sigamos...

Mas logo depois, a cada capítulo percebo que o colorismo da série muda, começa a aparecer personagens negros e inclusive a protagonista relata nunca ter visto alguém de cor, e fica impressionada (a cena trás espanto e leveza ao mesmo tempo, mas me deixou encafifada) por isso resolvi escrever sobre a mesma. 

A série se passa em um tempo onde as famílias moram em cidades pequenas, onde já se tem trem, mas seus transportes ainda são feitos a cavalo, com charretes e afins. as casas não tem luz elétrica, e ainda existe aquele pinico de louça horroroso para as pessoas fazerem suas necessidades. Coisas daquele tempo...

Começo a observar que a série começa a trazer temas interessantes como: abrigo, família não tradicional, preconceito com o diferente (a começar pela atriz eu é ruiva e se odeia por conta disso), os segredos de família, o preconceito e o uso das mulheres como prêmio ou produtos que irão salvar suas famílias casando com homens ricos e indo para escolas de etiqueta (contra a sua vontade), e o racismo estrutural, o racismo ambiental e todos as suas formas de racismo desenfreado e velado, ali, bem ali, naquela série, que ao primeiro olhar, seria um bálsamo para estes dias perversos de pandemia e solidão que tenho vivido.

Continuei reparando nas falas, nas formas, e eis que aparece o primeiro casal afrocentrado da série. Ele um rapaz que passou 10 anos cuidando das fezes e botando carvão em um navio, e ela uma lavadeira de roupas no gueto (favela), onde teve um filho, que ao ver não se sabe se foi de estupro do ex patrão (isso não é mencionado em nenhum momento), e o casal começa a surgir. O rapaz fica amigo e sócio do ator principal que é um adolescente que fica orfão, mas como herança o pai lhe deixa terras e casa, já o jovem negro, só tinha sua força de trabalho braçal. Ao conhecer a mulher negra, ela sempre não cedendo (já tinha tido a sofrido tudo que poderia sofrer, ao criar um filho sozinha) e já tinha se acostumado a viver a solidão da mulher preta, portanto, não aceitaria errar mais uma vez. Ela trabalhava na lavanderia com outras mulheres negras e isso remete ao conglomerado de não oportunidades que nunca tivemos, e que sempre nos foram negados. Elas nunca puderam escolher outro caminho.

A vida segue, eles ficam juntos, vão morar na casa do amigo branco, junto com ele e com planos de plantarem, colherem e viverem um período de dois anos juntos. A mulher começa a desencadear uma doença e vem a falecer, deixando o marido e a filha sozinhos. Ele entra em contato com a mãe, avó paterna da criança para vir ajudar na criança da menina, e é aí que tudo a chave vira na minha cabeça. Quando a avó vê o dono da casa, e percebe que ele é branco o começa a tratar como se ele fosse seu dono, e ela sua mucama, inclusive a destratar e tirar o "poder" que ela não imaginava que o filho tinha na casa. É impactante ver a mulher preta, filha também do dono, e com documentação confirmando essa propriedade se ver empregada do branco porque sempre foi subserviente aos brancos e não sabia fazer outra coisa, há não ser "agradar ao branco".

Confesso que essa parte me deixou extremamente preocupada e fazendo várias reflexões em minha cabeça. De como ainda nos sentimos assim, e como muitas de nós ainda reproduzem essas mesmas cenas de subservientes, de mucamas e de propriedade da sociedade branca, classista, racista, burguesa e acima de tudo perversa, sim, perversa que ainda tem (não estou generalizando). Com a entrada destes personagens negros, observamos que a paleta de cores muda, e nesta mesma temporada temos os indígenas que surgem e que me leva a pensar o quanto foram dizimados desde sempre. Na série não é diferente de hoje: roubo de crianças para catequizar as mesmas, posse de suas terras, assassinatos e falta de direitos para os indígenas. 

Parei e pensei: NADA MUDOU PORRA!!!! QUE COISA ABSURDA!!!!

Quantos mais, quantas mais terá que morrer, ser levada, levado para acordarmos de que sofremos as mesmas opressões o tempo todo, há milhões de anos? como fazer com que a história e as pessoas façam a reparação correta, necessária, justa em torno de tudo isso? Como fazer com que os que são descendentes dos que fizeram apoiem as reparações e dos que sofreram que lutem e continuem a lutar assim como seus ancestrais? 

Tempos difíceis, desde sempre tivemos, é estarrecedor ver que nada mudou, e que as poucas mudanças que conquistamos foi a muito suor, lágrima e sangue, muito sangue. Agora lhes pergunto: será que quem sujou suas mãos de sangue sofreu alguma retaliação? ou será que foram os negros e os indígenas que sempre são acusados de errados que levaram e levem a culpa?

Lhes afirmo: Depois que aprendemos a lutar, não vemos mais a vida com os mesmos olhos de complacência, então: que não baixemos as armas, sejam elas questionamentos, falas, ações, direitos, oportunidades e acima de tudo, NOSSA LIBERDADE DE ESCOLHA.




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